sexta-feira, 11 de junho de 2010

REINO DE DEUS



“Se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo.” (Mário Quintana)

 “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” (Oscar Wilde)

“O Reino de Deus faz parte da nossa vida ou a nossa vida faz parte do reino de Deus?

O presente artigo busca apresentar alguns princípios norteadores para a nossa compreensão do termo Reino de Deus. Devemos lembrar que não caberia aos homens criaturas finitas tentar definir um Reino de um Ser infinito. Com isso, o objetivo do presente artigo é apontar os princípios basilares deste Reino e suas implicações em nossa vida.
Podemos iniciar afirmando que o Reino de Deus não é “visível” não significa que o reino de Deus não pode ser percebido. Ele é invisível, mas não é imperceptível. É isso o que dizer que “o reino de Deus está entre [dentro] vocês”, foi isso que Jesus Cristo disse: “Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês” ou “dentro de vocês” [Lucas 17.20,21]. Jesus Cristo utiliza metáforas para se referir ao Reno como o sal, a luz, o fermento e o vento. [Mateus 5.13-16; 13.33; João 3.8]. E os elementos por Ele usados são coadjuvantes, ou seja, não pode existir sozinho precisa de outros elementos. As pessoas convocados para a grande reunião de Deus existe para o mundo.
O Reino de Deus veio inaugurar uma nova ordem. Esta nova ordem não é uma nova estrutura e um novo sistema religioso para Israel. Jesus Cristo não pretendia reformar o Judaísmo, nem tampouco propôs uma nova experiência religiosa em termos de sistemas e estruturas. Suas palavras sempre afetaram as pessoas em sua interioridade. A nova ordem é as boas noticias da graça de Deus, e  isso não gera uma nova religião. A nova ordem do Reino de Deus é a nova mentalidade, nova dinâmica de espiritualidade (além do culto-clero-domingo-templo, como diz o pastor Ed), e um novo tipo de gente (novo nascimento).

Com afirma o pastor Ed (2010) não se trata de deixar de freqüentar a catedral para a missa para passar a frequentar um grupo informal de oração na casa de um cristão. A questão é a nova mentalidade, a nova dinâmica de espiritualidade, e um novo tipo de gente. Com isso, Reino na gente, nos tira a obrigação de salvar o mundo, e nos dá a alegria de ver Deus salvar a nós mesmos. E isto significa que o trabalho de Deus é uma obra infinda de entalhamento de Seu Filho em nós; de tal modo, que tudo o que apareça “fora” seja apenas e tão somente o resultado dessa gestação do reino no coração. Obviamente que tal obra acaba por se evidenciar, assim como o fruto é a evidencia da vida da árvore.


O Reino de Deus vai muito além do que simplesmente fazer tentativas de contextualização. O Reino de Deus é sobre tudo libertação de homens e mulheres para um novo mundo, que não começa após morte, mas sobretudo que iniciasse no encontro com Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus. O caminho do Reino consiste na transformação da sociedade.  O Reino de Deus não é meramente o governo de Deus sobre o mundo por meio da criação e da providência; e esse fosse o caso, não poderíamos afirmar que foi inaugurado por Jesus Cristo. Com base no que René Padilla nos diz:
“De acordo com a vontade de Deus, a Igreja é chamada a manifestar o Reino de Deus aqui e agora, tanto através daquilo que ela faz, como através do que proclama. Porque o Reino de Deus já veio e está por vir;a Igreja “entre os tempos” é uma realidade escatológica e histórica. Se não manifesta plenamente o Reino, isto não se deve a que o Reino dinâmico de Deus tenha invadido a presente era “sem a autoridade ou o poder para transformá-la na era vindoura”, (NOTA 11. Arthur P. JOHNSTON. Op cit., p. 23), mas porque a consumação não chegou ainda. O poder que está ativo na igreja, no entanto, é como a operação do poder de Deus, o qual “exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar a sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado e potestade, e poder, e domínio, e de todo o nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro” (Ef 1.20-21). A missão da Igreja é a manifestação histórica deste poder por meio da palavra e da ação, no poder do Espírito Santo.”

O Reino de Deus é um grande banquete que convida a todos que desejarem. Assim Jesus Cristo diz que o Reino de Deus seria como um grande banquete no qual estariam presentes todos os que a igreja (instituição) deixaria fora, enquanto, de fato, estariam de fora os que tinham o suposto poder de dizer quem entraria ou sairia. Ele, entretanto, não disse nada que pudesse melhorar o desconforto dos donos das certezas. Ao contrario, disse: “Muitos virão do Norte, do Sul, do Oriente e do Ocidente, e tomarão lugar na mesa do reino de Deus com Abraão, Isaque e Jacó, enquanto ‘os filhos do reino’ ficarão de fora”. Ora, os que Ele chamou de ‘os filhos do reino”, são os que assim se consideravam, na mesma medida em que desconsideravam os outros! Portanto, é fácil saber quando uma pessoa mudou de time e agora joga no time do inimigo de Jesus:Toda pessoa que julga ter recebido de Deus a chave que abre para os outros entrarem ou que fecha para que ninguém entre — esse tal já está fora e não sabe ou não quer admitir.

O Reino de Deus possui chaves. “As chaves do reino de Deus”, conforme Jesus mencionou a Pedro, não é uma chave que serve no portão do céu.Também não é uma chave para o coração dos outros. Menos ainda é uma chave que abra acesso espiritual à ninguém; e que também seja útil a quem julgue que tenha o poder de fechar para que ninguém entre. Somente Jesus abre e ninguém fecha; fecha e ninguém abre! “As chaves do reino de Deus” abrem apenas onde o braço do homem [e olhe lá!] pode abrir, que é o seu próprio coração. E porque essas “chaves do reino de Deus” são da natureza intima que são, é que Jesus diz à Igreja em Éfeso que eles tinham a chave que poderia abrir a porta para eles mesmos; e tais “chaves do reino de Deus” existiam neles para que eles mesmos se abrissem.

O Reino de Deus não é a igreja. A igreja deve, tem a obrigação de ser o sinal do Reino. A igreja é a comunidade do Reino, mas nunca o próprio Reino. O reino é o reinado de Deus, a igreja é uma sociedade de pessoas imperfeitas, ou, pecadores que arrependidos que precisam de Deus e que precisam de pessoas A Igreja não é o Reino de Deus, mas o resultado concreto do Reino. Ela leva as marcas de sua existência histórica, do “ainda não” que caracteriza o tempo presente.
O Reino de Deus é um convite para a reconciliação do que estão de fora. "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, comerei com ele e ele comigo". É nessa despretensão que caminha o verdadeiro discípulo! Ele sabe, com alegre surpresa, que está dentro; porém, não ousa dizer quem está fora; posto que no dia que o faça seja porque ele mesmo já não esteja dentro. Somente se preserva em Deus quem anda nesse espírito! Os donos das certezas para os outros são os que estão andando para o buraco assoviando acerca da suposta desgraça dos diferentes, enquanto a viagem que a pessoa faz seja apenas para o fundo do buraco, embora ela chame isso de caminho do reino de Deus.  

Paulo Brabo  descreve  bem  essa  nova mentalidade,  nova  dinâmica  de espiritualidade,  e principalmente o novo  tipo de gente  em  seu  artigo Dez  razões para não  ser  cristão  (A Bacia das Almas, Editora Mundo Cristão). O título provocativo sugere que o Cristianismo se tornou uma religião como as outras, com o risco de contrariar e subverter o espírito de Jesus. Senão, observe exemplos da mensagem de  Jesus em contraposição ao espírito da religião e dos sistemas e estruturas religiosas.

As implicações do Reino de Deus resulta em que Jesus quer salvar-nos de fazer as boas-novas ser sobre um outro mundo e não esse. Jesus quer salvar-nos de pregar um evangelho que só fala sobre indivíduos e não sobre os sistemas que os escravizam. Jesus quer salvar-nos de diminuir o evangelho até se tornar uma transação sobre a remoção do pecado e não sobre toda e qualquer partícula da criação sendo reconciliada com seu criador. Jesus quer salvar-nos de um desespero religioso sancionado, do tipo que não acredita que o mundo pode se tornar melhor, do tipo que ruidosamente ou sutilmente ensina as pessoas a apenas ficarem quietas e se comportarem e esperarem que algo grandioso aconteça ‘algum dia’.

O Reino de Deus invadiu a história e agora é uma realidade presente e ao mesmo tempo um “ainda não”. Neste sentido, O Reino de Deus não é “o melhoramento social progressivo da humanidade, segundo o qual a tarefa da Igreja é transformar a terra em céu, e isto agora”, nem “o reinado interior de Deus presente nas disposições morais e espirituais da alma, com sua base no coração”. A evangelização e a responsabilidade social são inseparáveis. O evangelho é boa nova acerca do Reino de Deus. As boas obras, por outro lado, são só sinais do Reino para as quais fomos criados em Cristo Jesus. A palavra e a ação estão indissoluvelmente unidas na missão de Jesus Cristo. Sua proposta implicava a possibilidade de uma completa transformação ma mente e coração das pessoas, a instauração de uma nova dinâmica de espiritualidade e a existência de um outro tipo de gente, capaz de viver em qualquer sistema ou estrutura religiosa, ou mesmo sem qualquer sistema ou estrutura.

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