Alain Touraine, um dos principais intelectuais franceses, é um profundo conhecedor da América Latina, dos movimentos sociais e dos problemas da democracia nessa parte do mundo. Seu envolvimento com a região, que ele começou a freqüentar no fim dos anos 50, é emocional. Foi casado com uma chilena. Um de seus amigos e ex-alunos é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem jantou há cerca de 15 dias em Paris. Na semana passada, Touraine conversou com ÉPOCA e falou sobre o crescimento das igrejas evangélicas, populismo político e as fragilidades ainda existentes na democracia brasileira.
ÉPOCA – As igrejas pentecostais experimentaram um crescimento exponencial no Brasil. A Igreja Universal do Reino de Deus controla uma das maiores redes de televisão do país (a Record). Os líderes dessas igrejas almejam também poder político. Quais podem ser os efeitos para o sistema político no Brasil?
Alain Touraine – Pode ocorrer no Brasil o que aconteceu nos Estados Unidos. Lá, os evangélicos têm uma orientação política nitidamente conservadora. Nos EUA, as igrejas pentecostais também cresceram a partir da desorganização da sociedade rural, que se decompôs e fez com que muitas pessoas se sentissem isoladas. Essas pessoas costumam fazer uma ligação direta entre a espiritualidade pessoal e a ordem do mundo, passando por cima do social. O presidente dos EUA, George W. Bush, faz parte dessa categoria.
ÉPOCA – O que explica essa orientação conservadora?
Touraine – Essas igrejas costumam recrutar seus fiéis nas camadas mais baixas da sociedade, entre pessoas que são isoladas socialmente, fracassaram em seus projetos de ascensão ou foram marginalizadas no momento de transferência de uma comunidade rural para o meio urbano. No meio rural, elas participavam de uma comunidade estável, na qual o político, o social e o religioso andavam juntos e formavam o chamado espírito comunitário. Ao partir para as cidades, elas deixam comunidades ligadas a um grupo social e passam a integrar comunidades baseadas em experiências individuais. E a religião passa a representar para essas pessoas s uma tentativa de compensação espiritual pelo fracasso social. É como se elas dissessem: “Sim, eu não fui bem-sucedido social ou economicamente, mas sou mais espiritualizado e respeitoso de Deus do que outros”. Esse tipo de comportamento individualizado e de tentativa de compensação do fracasso social pela religião leva essas igrejas, em seu conjunto, a ser muito conservadoras do ponto de vista político.
ÉPOCA – Esse conservadorismo é uma ameaça à democracia?
Touraine – As ameaças à democracia começam quando uma religião passa a se considerar como se fosse o Estado ou passa a querer controlar o Estado. É o que acontece em alguns países muçulmanos. Foi o que aconteceu na Europa nos séculos XVI e XVII. Eu diria que o crescimento das igrejas pentecostais no Brasil é mais um fenômeno social que um fenômeno político, embora saibamos que no Rio de Janeiro há ligações entre essas igrejas e a política.
ÉPOCA – Qual é o perigo de misturar religião com política?
Touraine – O desenvolvimento da democracia supõe a independência do sistema político diante do sistema religioso. Não é preciso considerar, porém, essas igrejas, a priori, como perigo maior para a democracia. Coloco o problema de uma maneira inversa. É preciso, antes, integrar política e economicamente os setores que se encontram marginalizados e excluídos para reforçar a democracia. São certas fraquezas da democracia e a existência de uma grande população marginalizada ou informal que levam a certos tipos de prática religiosa e à possível influência de grupos marginalizados no sistema político.
ÉPOCA – Como assim?
Touraine – A América Latina continua a ser um continente de grandes desigualdades sociais. A sociedade brasileira, como todas as sociedades latino-americanas, tem um nível de exclusão e marginalização política mais ou menos igual ao nível de exclusão econômica. Isso torna a democracia mais fraca e a política fica influenciada por meio do que eu chamo de reservas populistas. Se você quiser pegar alguns exemplos, o crescimento do peronismo, na Argentina, foi muito ligado à existência de populações que não eram integradas ao sistema político. Dito isso, é preciso ressaltar que a democracia brasileira fez progressos consideráveis nos últimos 20 anos e está bem mais forte que no passado. Em particular, a transição do governo Fernando Henrique Cardoso para o governo de Lula no fim de 2002 foi notável.
ÉPOCA - O crescimento das igrejas evangélicas significou um aumento da diversidade religiosa no Brasil. Isso não é bom?
Touraine - Eu não faço esse julgamento. A Igreja Católica tem a pretensão de representar uma verdade universal. Nenhum das igrejas evangélicas provenientes seja do protestantismo tradicional seja do ramo batista norte-americano têm essa pretensão. É uma grande diferença, portanto, com o catolicismo e as igrejas ortodoxas. Essa é uma situação que corresponde a uma sociedade em movimento. A Igreja Católica era muito forte quando as estruturais rurais e morais eram muito estáveis, onde o político, o social e o religioso andavam junto. Hoje, é evidentemente que essas igrejas ou cultos correspondem a uma sociedade que não tem mais um princípio de unidade. Há uma certa privatização da religião. Isso corresponde a uma sociedade em movimento.
ÉPOCA - Há um retorno às religiões, por causa da globalização?
Touraine - Há uma crise da filosofia do progresso, da crença na tecnologia, no racionalismo - esse modelo do século XIX. Essa crise pode ser encarada como um retorno ao não-racionalismo, a uma visão que não é propriamente religiosa e leva a práticas irracionais como magia, mediunidade, etc. O cristianismo, por exemplo, é uma religião muito racionalista, muito aristotélica. O irracionalismo é quase o contrário da religião, ao menos no mundo cristão.
ÉPOCA - O que o senhor acha dos ataques do Papa Bento XVI à secularização da sociedade?
Touraine - Não se pode culpar o papa por ele ser católico. Essa é a visão católica das coisas. Eu não gosto do tema do secularismo. O tema do secularismo quer dizer que o mundo é dominado pelo racionalismo. Isso, na minha visão, é completamente falso. Eu acho que o mundo é dominado pela racionalização e pelo nascimento da liberdade de consciência. As igrejas se opõem a essa liberdade de consciência. Mas, ao mesmo tempo, defendem o domínio da consciência moral. Isso faz com que a rejeição do secularismo seja uma coisa mais ambivalente do que era em tempos passados.
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