terça-feira, 11 de dezembro de 2007

CRUZ E CURA NA TEOLOGIA E NA POIMÊNICA DE LUTERO

Por Rafael S. Vaillant


Segundo Ricardo W. Rieth curas espirituais ou divinas são parte fundamental de manifestações religiosas no Brasil e na América Latina. Concepções e práticas existentes na religiosidade popular (promessas dirigidas a santos e benzeduras), no protestantismo pentecostal e no catolicismo carismático (orações de cura, unções com óleo e exorcismos) evidenciam-no claramente. Ainda assim, o protestantismo tradicional neste continente, parece não demonstrar muita vontade e aptidão para tratar, seja teológica, seja pastoralmente, das curas espirituais como parte integrante da experiência de fé.

Lutero, como teólogo dedicado eminentemente à interpretação da Escritura Sagrada e como cura d’almas, refletiu academicamente e assumiu determinadas práticas pastorais relacionadas a isso. Para Lutero, todos os objetos de fé devem estar abscônditos, ocultos. Isso significa que também o modo de ser cristão, ou vida cristã, precisa estar oculto sob sua forma contrária. Sua glória tem que apresentar-se na inferioridade, sua grandeza na ignomínia, sua alegria no sofrimento, sua esperança no desespero e sua vida na morte. Lutero leva a sério as palavras: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (c.f. Mt 16.24), mas não quer interpretá-las na direção de um ascetismo radical ou de uma experiência mística.

As pessoas cristãs deveriam ser igualar a Jesus em tudo, inclusive no sofrimento. A vida cristã caracteriza-se como um estado de baixeza, correspondente à situação de humilhação pela qual Cristo passou. A vida cristã é uma jornada marcada pelo sofrimento, um discipulado sob a cruz. Ela conduz ao sofrimento. O sofrimento de Cristo torna-se presente diariamente na existência da pessoa crente. Não se trata de um sofrimento de escolha própria, voluntarioso, algo que Deus rejeita por completo. A cruz na vida cristã é uma obra do Espírito Santo. O sentido do sofrimento é o de desdobrar e fortalecer a fé. O sofrimento também pode ser castigo pelo pecado, mas o mais característico para a teologia da cruz de Lutero é a vinculação entre sofrimento e fé.

Podemos afirmar que é no sofrimento que Deus vem em direção à pessoa crente, trata-se de um sinal da graça de Deus e uma comprovação da filiação divina. Discipulado do sofrimento é discipulado sob a cruz. A cruz foi erguida em meio à vida de Cristo e torna a vida da pessoa cristã um discipulado de sofrimento. O sofrimento não é compreendido por Lutero em perspectiva cosmológico-metafísica, mas teológica, isto é, não toma como referência a natureza humana, mas a revelação de Deus na história. Por isso, o sofrimento nada tem a ver com “boas obras”. Há uma pertença mútua entre a cruz de Cristo e a cruz da pessoa crente, a qual exclui toda e qualquer idéia de mérito humano.

De formar extraordinário, Ricardo W. Rieth afirmar que a vida da pessoa cristã é um “ser crucificado com Cristo”. Isso está relacionado intrinsecamente com a obra de Cristo e não apenas à doutrina da santificação. Pois a obra própria e natural do sofrimento de Cristo consiste em levar o ser humano à conformidade com Cristo. Assim como Cristo é martirizado física e psiquicamente de forma terrível em nossos pecados, também nós, à sua semelhança, devemos ser martirizados na consciência pelos nossos pecados. […] Pois não há como alterar a exigência de te conformares com a imagem e o sofrimento de Cristo, quer nesta vida, quer no inferno […]. Pois o sofrimento de Cristo não deve ser tratado com palavras e aparências, mas com a vida e com veracidade.

Na atualidade onde Igrejas vendem milagres e vitória financeira. Precisamos anunciar o Evangelho da Cruz que trilha o caminho do sofrimento. Não se pode dar impressão de que a cura de alguém é pelo seu merecimento, pois Cristo Jesus faz o que Ele quer da forma que a glória D’Ele não seja coberta pela vaidade daqueles se acham os donos da chaves dos milagres de Deus. É necessário que a consciência das pessoas ministrantes seja reforçada com a ênfase na certeza de que agem em nome de Deus e no âmbito do exercício público de seus ministérios. A intervenção divina independe da fé dos ministrantes e da comunidade. Sua fé, porém, tem um papel importante, pois quem ministra é por ela instado a insistir na oração, até que Deus escute.

Nele, que cura e salva.

Rafael S. Vaillant

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