quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

DESABAFO DE UM PROFESSOR DE TEOLOGIA

Carlos Eduardo Calvani*

Sou um professor de Teologia em crise. Não com minha fé ou com minhas convicções, mas com a dificuldade que eu e outros colegas enfrentamos nos últimos anos diante dos novos seminaristas enviados para as faculdades de teologia evangélica. Tenho trabalhado como Professor em Seminários Evangélicos presbiterianos, batistas, da Assembléia de Deus e interdenominacionais desde 1991 e, tristemente, observo que nunca houve safras tão fracas de vocacionados como nos últimos três anos.

No início de meu ministério docente, recordo-me que os alunos chegavam aos seminários bastante preparados biblicamente, com uma visão teológica razoavelmente ampla, com conhecimentos mínimos de história do cristianismo e com uma sede intelectual muito grande por penetrar no fascinante mundo da teologia cristã. Ultimamente, porém, aqueles que se matriculam em Seminários refletem a pobreza e mediocridade teológica que tomaram conta de nossas igrejas evangélicas.

Sempre pergunto aos calouros a respeito de suas convicções em relação ao chamado e à vocação. Pois outro dia, um calouro saiu-se com a brilhante resposta: "não passei em nenhum vestibular e comecei a sentir que Deus impedira meu acesso à universidade a fim de que eu me dedicasse ao ministério". Trata-se do mais típico caso de "certeza da vocação" adquirida na ignorância. E, invariavelmente, esses são os alunos que mais transpiram preguiça intelectual. A grande maioria dos novos vocacionados chega aos Seminários influenciada pelos modismos que grassam no mundo evangélico. Alguns se autodenominam "levitas". Outros, dizem que estão ali porque são vocacionados a serem "apóstolos".

Ultimamente qualquer pessoa que canta ou toca algum instrumento na igreja, se auto-denomina "levita". Tento fazê-los compreender que os levitas, na antiga aliança, não apenas cantavam e tocavam instrumentos no Templo, como também cuidavam da higiene e limpeza do altar dos sacrifícios (afinal, muito sangue era derramado várias vezes por dia), além de constituírem até mesmo uma espécie de "força policial" para manter a ordem nas celebrações. Porém, hoje em dia, para os "novos levitas" basta saber tocar três acordes e fazer algumas coreografias aeróbicas durante o louvor para se sentirem com autoridade até mesmo para mudar a ordem dos cultos.

Outros há, que se auto-intitulam "apóstolos". Dentro de alguns dias teremos também "anjos", "arcanjos", "querubins" e "serafins". No dia em que inventarem o ministério de "semi-deus" já não precisaremos mais sequer da Bíblia.Nunca pensei que fosse escrever isso, pois as pessoas que me conhecem geralmente me chamam de "progressista". Entretanto, ultimamente, ando é muito conservador. Na verdade, "saudosista" ou "nostálgico" seriam expressões melhores. Tenho saudades de um tempo em que havia um encadeamento lógico nos cultos evangélicos, em que os cânticos e hinos estavam distribuídos equilibradamente na ordem do culto.

Atualmente os chamados "momentos de louvor" mais se assemelham a show ensurdecedores ou de um sentimentalismo meloso. Pior: sobrepujam em tempo e importância a centralidade da Palavra e da Ceia nas Igrejas Protestantes. Muitas pessoas vão à Igreja muito mais por causa do "louvor" do que para ouvir a Palavra que regenera, orienta e exige de nós obediência. Dias atrás, na semana da Páscoa comentei com um grupo de alunos a respeito da liturgia das "sete palavras da cruz" que seria celebrada em minha Igreja na 6a feira da paixão. Alguns manifestaram desejo de participar. Eu os avisei então que se tratava de uma liturgia que dura, em média, uma hora e meia, durante a qual não é cantado nenhum hino (pelo menos na tradição de minha Igreja - Anglicana), mas onde lemos as Escrituras, oramos e meditamos nas sete palavras pronunciadas por Cristo durante a crucificação. Ao saberem disso, um deles disse: "se não houver música, não há culto".

Creio que, em parte, isso é reflexo da cultura pop, da influência da "Geração MTV", incapaz de perceber que Deus pode ser encontrado também na contemplação, meditação e no silêncio. Percebo também que alguns colegas pastores de outras igrejas freqüentemente manifestam a sensação de sentirem-se tolhidos e pressionados pelos diversos grupos de louvor. O mercado gospel cresceu muito em nosso país e, além de enriquecer os "artistas" e insuflar seus egos, passou a determinar até mesmo a "identidade" das igrejas evangélicas. Houve tempo em que um presbiteriano ou um batista sabiam dar razão de suas crenças. Atualmente, tudo parece estar se diluindo numa massa disforme.

Trata-se da "xuxização" ("todo mundo batendo palma agora... todo mundo tá feliz ? tá feliz!") do mundo evangélico, liderada pelos "levitas" que aprisionam ideologicamente os ministros da Palavra. O apóstolo Paulo dizia que a Palavra não está aprisionada. Mas, em nossos dias, os ministros da Palavra, estão - cativos da cultura gospel.Tenho a impressão de que isso tudo é, em parte, reflexo de um antigo problema: o relacionamento do mundo evangélico com a cultura chamada "secular". Amedrontados com as muitas opções que o "mundo" oferece, os pais preferem ter os filhos constantemente sob a mira dos olhos aos domingos, ainda que isso implique em modificar a identidade das Igrejas. E os pastores, reféns que são dos dízimos de onde retiram seus salários, rendem-se às conveniências, no estilo dos sacerdotes do Antigo Testamento.

Um aluno disse-me que, no dia em que os evangélicos tomarem o poder no Brasil acabarão com o carnaval, as "folias de rei", os cinemas, bares, danceterias etc. Assusta-me o fato de que o desenvolvimento dessa sub-cultura "gospel" torne o mundo evangélico tão guetizado que, se um dia, realmente os evangélicos tomarem o poder na sociedade, venham a desenvolver uma espécie de "Talibã evangélico". Tal como as estátuas do Buda no Afeganistão, o "Cristo Redentor" estará com os dias contados. Esses jovens que passam o dia ouvindo rádios gospel e lendo textos de duvidosa qualidade teológica, de repente vêm nos Seminários uma grande oportunidade de ascensão profissional e buscam em massa os seminários. Nunca houve tanta afluência de jovens nos seminários como nos últimos anos.Em um seminário em que trabalhei (de outra denominação), os colegas diziam que a Igreja, em breve teria problemas, pois o crescimento da Igreja não era proporcional ao número de jovens que todos os anos saíam dos Seminários como bacharéis em teologia, aptos para o exercício do ministério.

A preocupação dos colegas era: onde colocar todos esses novos pastores? Na minha ingenuidade, sugeri que seria uma grande oportunidade missionária: enviá-los para iniciarem novas comunidades em zonas rurais e na periferia das cidades. Foi então que um colega, bastante sábio, retrucou: "Eles não querem. Recusam-se! Querem as Igrejas grandes, já formadas e estabelecidas, sem problemas financeiros". De fato, percebi que alguns realmente se mostravam decepcionados ao saberem que teriam que começar seu ministério em um lugar pequeno, numa comunidade pobre, fazendo cultos nos lares, cantando às vezes "à capella" e sem o apoio dos amplificadores e mesas-de-som. Na maioria dos Seminários hoje, os alunos sabem o nome de todas as bandas gospel, mas não sabem quem foi Wesley, Lutero ou Calvino.

Talvez até já tenham ouvido falar desses nomes, mas são para eles, como que personagens de um passado sem-importância e sobre o qual não vale a pena ler ou estudar. Talvez por isso eu e outros colegas professores nos sintamos hoje em dia como que "falando para as paredes". Nem dá gosto mais preparar uma aula decente, pois na maioria das vezes temos sempre que "voltar aos rudimentos da fé" e dar aos vocacionados o leite que não recebem nas Igrejas. Várias vezes me vi tendo que mudar o rumo das aulas preparadas para falar de assuntos que antes discutíamos nas Escolas Dominicais. Não sei se isso acontece em todos os Seminários, mas em muitos lugares, o conteúdo e a profundidade dos temas discutidos pouco difere das aulas que ministrávamos na Escola Dominical para neófitos. Sei que muitos que lerem esse desabafo, não concordarão em nada com o que eu disse. Mas não é a esses que me dirijo, e sim aos saudosistas como eu, nostálgicos de um tempo em que o cristianismo evangélico no Brasil era realmente referencial de uma religiosidade saudável, equilibrada e madura e em que a Palavra lida e proclamada valia muito mais que o último CD da moda.


*De Londrina e Coordenador do Centro de Estudos Anglicanos (CEA).

Enviado por Pr. Arauna dos Santos


6 comentários:

Unknown disse...

Concordo com o desabafo. E, como o autor,não sou contra os louvores, eu apenas sou a favor da soberania da palavra de Deus.

ESCRITURA-FÉ-GRAÇA.

Natalino Rogelio disse...

"Dai-lhe vós de comer"

Concordo com o professor em muitos aspectos. Também tenho saudades das escolas dominicais ricas de ensinamentos. É difícil conviver com os "novos levitas" do presente século.
Entretanto percebo uma oportunidade. Já que não recebem o "b-a - bá" nas suas igrejas, muito embora não seja essa a função de um seminário, acredito que a procura de cursos teológicos por esses "vocacionados" possa ser a oportunidade de lhes mostrar as escrituras na sua profundidade, desmantelar os conceitos mercantilistas (capitalista selvagem) que os levaram a pensarem que o evangelho é fama, status e poder secular. Diante destes alunos o professor poderá apresentar o Cristo ressurreto que aconselha: "vende tudo que tens, distibui aos pobres, vem e segue-me e terás um tesouro nos céus". Talves alguns abaixem a cabeça e voltem para regras que observam desde a mocidade e saiam por possuirem muitos bens, mas, mesmo assim, para Deus tudo é possível.
Creio querido pastor, que não estás só nesta montanha, "há sete mil que não se dobraram a Baal". Como os alunos não se prepararam para longa jornada, não adianta enviá-los com fome! "Dai-lhes vós de comer" Mt 14, 16c.

Benedito Dias disse...

Não consigo concordar com todo desabafo do professor. Parabenizo por parte do assunto e devo dizer que não podemos negar o crescimeneto do número de evangélcios no Brasil depois do advento do movimento gospel. É evidente, no meio de tudo isso, em alguns casos, um crescimento sem qualidade espiritural, mas isso, no meu entendimento, deve melhorar a partir dos ministérios pastorais que deverão discipular esse crescimento. Quanto aos levitas, certamente, muitos deles não sabem o que é isso.

Waldemar disse...

Creio que o problema é bem mais profundo, ao menos pelo que consta no trecho desta reportagem:Em Anaheim, CA, USA, teve muita conversa sobre pregação e testemunho ungido, e uma atenção especial foi dado à música ungida. A implicação óbvia era de que os músicos do Vineyard estavam debaixo da unção e que cada um deveria entender a importância do papel que música terá na evangelização do mundo. Um bem conhecido músico country cantou e deu seu testemunho. Ele explicou que através de sua música ungida ele podia levar o Evangelho a bares e outros lugares de entretenimento mundano onde o Evangelho, de outra forma, não seria tolerado ou ouvido. Ele recebeu altos elogios de Wimber, o qual também foi músico de jazz antes de sua alegada conversão. Do palco, por várias vezes, foram feitas afirmações as quais não entendi até alguns dias mais tarde. Estas afirmações eram do tipo “nós perdemos a música ungida de Deus quando foi dada pela primeira vez e que nós não deveríamos cometer o mesmo erro quando ele restaurará esta unção.” Somente mais tarde eu descobri que esta suposta unção original de música e músicos se referia aos infames Beatles.
A música dos Beatles era ungida por Deus? Qualquer crente com discernimento responderia à esta pergunta, sem hesitação, com um sonoro “não”! Mas, acredite se quiser, um dos muitos falsos profetas dos nossos dias reiterou que ambos, os Beatles e sua música nova são o resultado de uma unção especial do Espírito Santo; e, que apesar de que Deus teve que retirar essa unção deles quando mais tarde abusaram dela, Deus está agora procurando por outros sobre os quais ele pode colocar esta unção, supostamente para produzir um reavivamento mundial através da música.
O falso profeta que fez esta afirmação estupefante é James Ryle, um do constantemente aumentando número de falsos profetas ligados a John Wimber e o Vineyard Christian Fellowship. Ryle afirma que ele foi instruído por Deus para dar esta nova “revelação” para a igreja. A informação que segue são trechos de uma fita gravada das revelações auto-proclamadas de Ryle, dadas publicamente em novembro passado (1990) na Harvest Conference in Denver, Colorado:
“O Senhor me nomeou como um espia e me mostrou algumas coisas que eu pretendo mostrar e falar a vocês ... O Senhor falou-me e disse, ‘O que você viu nos Beatles – o dão e o som que eles tinham – era de mim. Isso não lhes pertencia. Era o meu propósito trazer um reavivamento mundial através da música o qual invocaria o mover do Espírito a trazer homens e mulheres a Cristo... Agora estou procurando por aqueles sobre os quais posso colocar essa unção de novo. E tão certo como eu a colocarei sobre eles, eles surgirão com um som que é distinto que tornará os corações de homens e mulheres e arrebatará seus corações.”
Depois, se referindo a uma transmissão de TV notável dos Beatles do show de Ed Sullivan, anos atrás, Ryle disse: “Vocês lembram quando a câmera de TV se afastou dos Beatles e se dirigiu aos balcões? ...Você lembra as pessoas puxando os seus cabelos e gritando? – John, Paul, George & Ringo! Sabe eu vi numa visão a mesma cena do balcão. Eu vi a mesma emoção. Eu vi a mesma serenidade nas faces das pessoas que lá estavam sentadas; mas desta vez elas não gritavam - John, Paul, George & Ringo – desta vez gritavam um nome, Jesus, - é isto que eles estavam fazendo. Há um som emergindo – um ungido sobre a música que, quando aqueles que são musicalmente dotados no nosso meio, começam a empregar seus talentos na unção do Senhor, um assombroso mover do Espírito de Deus sucederá e multidões incontáveis serão empurrados no abraço amoroso do Senhor Jesus.

Da FOUNDATION MAGAZINE January-February 1991, pág. 16 e 17.
Como já lembrado pelo escritor do artigo acima e complementando: Não há dúvidas qual espírito controlava os Beatles.

Por extensão dá, também, para identificar o espírito que falou através de Ryle.
A conclusão que se deduz é que o movimento da música do estilo dos Beatles fora e dentro da igreja pertence ao mesmo espírito.

A invasão deste tipo de música nas igrejas foi profetizado pelos profetas das trevas. A quem a igreja, nessa área, se tornou submissa?

John Todd, ex bruxo e ex-integrante dos Iluminati top 13 relata:

Os Beatles são classificadas no mundo oculto como os quatro grandes profetas. Isso é verdade, há mais com os Beatles do que o olho vê. Seu Double White Album ... agora isso não vai significar para muitos de vocês, e um grande númerodos jovens. O seu duplo Álbum Branco é considerado o livro do Apocalipse das bruxas. Isso é verdade. Este e um livro chamado Atlas Shrugs.

Nele há uma canção intitulada "Helter Skelter". Você deveria ouvir essa música, eu costumava ter uma grande quantidade de amigos de drogas que se reuniam se perguntado: o que significa isso?" - Bruxos sabem o que isso quer dizer, isto era parte de língua de bruxos. Ela significa um momento em que o buraco será aberto e os demônios seriam libertos e o mundo tornar-se-ia louco em menos de um período de 24 horas e que seria matar todos - os seus vizinhos do lado, os seus filhos, sua esposa, tudo! O mundo iria simplesmente completamente e massiçamente louco da noite para o dia.
Do site:
http://www.kt70.com/~jamesjpn/articles/john_todd_and_the_illuminati_3.htm

Danilo Sergio Pallar Lemos disse...

Prezado colega, também tenho comprovado e sentido esta "dor", estamos tendo um desafio de ensinar e formar Teológos que não são pesquisadores e nem conhecedores da Biblia e nem da Teologia. Mas prossigo com uma esperânça de uma mudança, e prossigo cobrando o máximo de meu alunos.

Acesse meu blog. www.vivendoteologia.blogspot.com

Anônimo disse...

Boa análise

Gostaria de postar (com o devido crédito, é claro!)esta análise em meu blog

abraços