| No caminho (Parte 2) Posso descrever minha fé cristã como pós-dogmática, pós-fundamentalista, pós-institucional e pós-colonial. Na primeira parte tratei do aspecto “pós-dogmática”. Agora vamos ao segundo aspecto. Pós-fundamentalista O fundamentalismo indica um movimento articulado, ou um segmento dentro de um grupo maior, mas também, e talvez principalmente, uma postura em relação às questões de crenças. A postura chamada fundamentalista está relacionada, geralmente, a grupos extremistas, que se auto-nomeiam guardiões dos fundamentos originais de sua tradição, e, portanto, são conservadores, fechados ao diálogo, e defendem suas crenças como verdades definitivas e absolutas. O termo fundamentalismo passou a ser usado para designar pessoas adeptas de crenças irracionais ou exageradas, e aos poucos foi se tornando sinônimo de fanatismo. Por força do seu desígnio de preservação dos princípios originais, ou fundamentos, de sua tradição, os fundamentalistas geralmente se articulam com ênfase no discurso apologético dogmático, mais preocupado com a defesa do que compreendem ser a verdade pura, notadamente a partir de uma leitura literalista, moralista e filosoficamente racionalista dos textos sagrados. Via de regra, os fundamentalistas têm uma postura inquisitorial, o que resulta em uma identidade construída em oposição não poucas vezes violenta a tudo e todos considerados inimigos da correta doutrina. Os dogmáticos dizem “nós temos a verdade”. Os fundamentalistas dizem “somente nós temos a verdade”. No contexto religioso cristão, o termo fundamentalismo tem raiz histórica na Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana Americana, 1910, que, em resposta ao liberalismo teológico europeu, definiu uma declaração de cinco fundamentos considerados inegociáveis à fé evangélica: os milagres, o nascimento virginal, a morte expiatória e a ressurreição de Cristo, e a autoridade das Escrituras. Estes cinco pontos foram desdobrados em uma série de 12 livretos chamados de Os Fundamentos. Justiça seja feita: àquela altura era razoável que alguém se levantasse para manter em pauta algumas questões que uma vez descartadas acabariam por fazer ruir todo o prédio do Cristianismo. Mas acho que a coisa extrapolou. A noção de que a pureza do Cristianismo depende da preservação de um conjunto de dogmas e afirmações doutrinárias, tem origem na própria gênese do fundamentalismo cristão, a saber, o liberalismo teológico europeu e seu contexto iluminista. O ateísmo metodológico (deixar Deus de fora da explicação dos fenômenos naturais e sociais) das ciências modernas influenciou os teólogos cristãos de tal maneira que aos poucos Deus foi sendo deixado mesmo de lado. Não demorou muito para que surgissem explicações científicas para os eventos bíblicos, e até mesmo para a própria Bíblia. Os racionalistas não acreditavam na possibilidade de qualquer sobrenatural, e muito menos da invasão do sobrenatural no mundo natural e na história. Os teólogos influenciados por essa onda passaram a enxergar a Bíblia como um livro meramente humano, referencial para a caminhada e evolução espiritual da humanidade: narrativas pedagógicas, eventos simbólicos, personagens míticas, e assim por diante. Em termos simples, podemos afirmar que o liberalismo teológico europeu surgiu quando o método científico passou a ser o critério para a validação da verdade e a razão passou a ser o critério para a avaliação da experiência religiosa. A partir daí as portas para o dogmatismo e o fundamentalismo foram abertas. Os teólogos influenciados pelo racionalismo filosófico pretenderam que a verdade coubesse nos estreitos limites da razão humana. Os fundamentalistas religiosos cristãos fizeram o mesmo. A diferença entre uns e outros é o conjunto de verdades que pretendem afirmar como definitivas. Esta é uma razão suficiente para que eu descarte o movimento fundamentalista, da mesma forma que descartei o liberalismo. Mas tenho outras razões. A primeira é a armadilha embutida em todo movimento de reação. O que no início é uma resposta, com o passar dos anos passa a ser proposta. Os liberais diziam, por exemplo, que a Bíblia não é revelação divina, que Jesus é apenas o humano padrão, e que o Cristianismo é um dentre vários registros da experiência humana do divino, ainda que o melhor deles. Os fundamentalistas reagiram, e afirmaram, dentre outras coisas, sua fé na Bíblia como palavra revelada de Deus, na divindade de Jesus Cristo, e na necessidade da redenção do ser humano. E depois passaram o resto da vida afirmando e defendendo as mesmas coisas, como se essas poucas coisas, ainda que essenciais, fossem a totalidade da fé cristã. Outra razão para descartar o movimento fundamentalista é o próprio conjunto de “fundamentos”. Os fundamentos esposados pelo movimento fundamentalista são crenças teológicas. Minha questão é: seriam mesmo estes os reais e mais essenciais fundamentos pelos quais os cristãos deveriam ser identificados ao longo da história? Minha resposta é um peremptório “não”. Imagino que o amor ao próximo, a compaixão, o espírito pacificador, a solidariedade, e ou a busca incansável pela justiça seriam mais adequados como distintivos dos cristãos. Considerando que a verdade é uma pessoa, que a relação com a verdade é o relacionamento com uma pessoa, notadamente Jesus, e que o encontro com a verdade está no caminho do amor, resumir os fundamentos da fé cristã a um conjunto de dogmas e doutrinas é reduzir demais, senão até mesmo distorcer, a fé cristã. Também descarto o movimento fundamentalista porque não acredito que a crença nas afirmações por ele enunciadas implica o encontro com a verdade. Vejo embutido no espírito do fundamentalismo a sugestão de que todo aquele que acredita nos fundamentos encontrou a verdade. Já deixei claro na primeira parte deste artigo que o encontro com a verdade não é uma questão racional, mera aquiescência intelectual a um conjunto de doutrinas. Creio nas chamadas verdades fundamentais da fé cristã. Creio que Jesus nasceu da virgem, que o ser humano carece de redenção, que a morte e a ressurreição de Jesus afetaram a realidade espiritual de maneira singular, que Deus é uma dança de três pessoas (na verdade, a idéia de Deus como “pessoas” ainda me soa reducionista do que seja Deus, e a idéia de que Deus é ainda me parece reducionista, pois gosto de pensar em Deus como o Ser–em-si, conforme Paul Tillich). Mas insisto que estas minhas afirmações credais são descrições racionais da realidade, e jamais se confundem com a realidade. Isto é, não acredito que minhas afirmações credais sejam exaustivas, quer na abrangência (há mais coisas em que creio), quer no conteúdo (há mais coisas a serem ditas a respeito das coisas em que creio), quer na profundidade (há mais significados implicados nas coisas em que creio). Com isso quero dizer que minha fé e experiência cristãs jamais serão abaladas caso eu descubra aqui ou alhures que uma ou outra parte, ou mesmo a totalidade das minhas crenças, não correspondem à realidade. Quero também dizer que minhas crenças servem apenas como mapa para minha peregrinação espiritual, que é infinitamente mais complexa do que o mapa Minha última (por enquanto) razão para descartar o movimento fundamentalista é, pelo menos para mim, um pouco mais complicada: de fato creio que a Bíblia é um livro escrito a quatro mãos: divinas e humanas, e, portanto, com registros limitados aos horizontes históricos, sociais e culturais de seus autores humanos, e nesse ponto sou muito mais próximo dos teólogos liberais do que dos fundamentalistas. Particularmente considero que a evolução do pensamento humano deve de fato afetar nossa aproximação do texto sagrado. Creio mesmo que algumas coisas na Bíblia Sagrada são próprias para seu contexto de origem e devem ser desconsideradas como normatização definitiva para a vida O movimento fundamentalista como afirmação de algumas verdades (mais precisamente cinco); postura literalista de leitura das Escrituras; atitude sectária, intolerante e intransigente na defesa da verdade em termos racionais e definitivos, não me serve para a festa da celebração da fé. Por favor, alguém me empreste um outro paletó. Ou quem sabe, um bermudão. |
Meu professor me chamou em sua sala e jogou sobre a mesa um artigo que eu havia escrito para o jornal do Centro Acadêmico da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Disse que diretor havia solicitado uma avaliação, pois o teor do texto não lhe pareceu adequado à sã doutrina. Lamentei, mantive minhas palavras, e lembrei ao mestre que ele havia me ensinado aquelas coisas e me colocado no “mau caminho”. Ele riu e me dispensou. Dias depois recebi uma cópia do parecer: “O artigo não é dos mais ortodoxos, mas está nos limites toleráveis de divergência”.
Já se passaram mais de vinte anos e ainda hoje me sinto andando na beirada. Os mais preocupados com meu destino eterno, já os tranqüilizei dizendo que acredito que vou para o céu, mas não no vagão da primeira classe: lá só cabem os que crêem e vivem de maneira correta, os que têm certeza de suas verdades e são irrepreensíveis aos seus próprios olhos.
Não me lembro ao certo quando essa coisa me pegou, mas o fato é que desde sempre percebi que a identidade evangélica conforme compreendida pelo senso comum da sociedade brasileira não me caía bem. Confesso que tentei me enquadrar: percorri a trilha batida do chão de minha denominação, fui submisso aos meus pastores, apostei muitas fichas no jogo eclesiástico no início do meu ministério pastoral, freqüentei, como ouvinte e pregador, os mais variados auditórios da igreja evangélica. Mas em algum momento joguei a toalha. Anunciei que estava em busca de outro deus, diferente do deus dos evangélicos, e muitos acharam que eu buscava um deus diferente do Deus da Bíblia. Coloquei o pé na estrada em busca de outra espiritualidade, diferente da espiritualidade dos evangélicos, e graças a Deus meus pés ainda estão na poeira do chão.
Agradeço a Deus os primeiros anos, a evangelização e formação cristã conservadora que recebi, e tenho imensa gratidão a todos os que tiveram paciência para me ensinar a andar de bicicleta. Mas agora ando sem as mãos, sem os pés, planto bananeira no selim, e, confesso, começo a achar a bicicleta um brinquedo meio chato (sim, já quebrei a cara e os dentes, mas acho que faz parte). Em síntese, o Cristianismo que me faz sentido hoje é bem diferente daquele ao qual me converti – ou fui convertido – na adolescência, foi adensado na juventude e praticado nos primeiros anos do ministério pastoral. Posso descrever minha fé cristã como pós-dogmática, pós-fundamentalista, pós-institucional e pós-colonial.
Pós-dogmática
Dogmatismo (do grego dogmatikós, que se funda em princípios) é a postura que admite a capacidade do homem, através da razão, atingir a verdade absoluta, definitiva e indiscutível. Dogma, ou doutrina, é a descrição da realidade, e dogmático é aquele que acredita que a realidade é exatamente da forma como a percebe.
Os dogmáticos erram ao desconsiderar o fato de que a realidade é sempre maior do que o que dela conseguimos perceber, e mesmo aquilo que conseguimos perceber é maior do que o que conseguir traduzir
Quando Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, estabelece uma nova dimensão de relação com a verdade. A partir dessa declaração de Jesus, a verdade não é mais uma questão de crença, pois já não se trata de explicar e descrever a realidade de maneira racional, mas de se relacionar com uma pessoa: o próprio Jesus. O Novo Testamento Judaico traduz corretamente João 3.16: “Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo que nele confia possa ter vida eterna, em vez de ser completamente destruído”.
Conforme a distinção entre fé e crença feita por Jacques Ellul, a relação com Jesus transcende a questão da crença - acredito ou não acredito; mas é uma questão de fé - confio ou não confio, entrego a ele minha vida ou não entrego. Isso ajuda a entender a afirmação de Paulo Brabo: “Minha fé não é aquilo em que acredito”.
José Comblin, em seu opúsculo O que é a verdade? (Paulus: 2005), concorda que a verdade não é dogma ou doutrina, mas a pessoa de Jesus, e que o encontro com a verdade se dá no caminho de Jesus, a saber, o caminho do amor. Isso faz total sentido com o ensino dos primeiros apóstolos cristãos. João, dos discípulos, talvez o mais íntimo de Jesus, nos aponta o caminho: “Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como oferta pelos nossos pecados. Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros (...) ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado
Deus não pode ser visto, apropriado pela razão, traduzido
Estas compreensões, do limites da razão humana, da distinção entre fé e crença, a verdade como uma pessoa – Jesus, o encontro com a verdade como uma experiência no caminho do amor, me fizeram abandonar a dimensão dogmática da fé. Primeiro, porque considero toda formulação dogmática apenas uma percepção da realidade, e nunca uma descrição exata da verdade. A teologia, em termos de doutrinas e dogmas, serve à minha razão, e me ajuda organizar a realidade e me situar nela, para que o mundo me faça sentido e eu possa caminhar com direção e significado. Mas quando as descrições da realidade deixam fazer sentido, vou descartando doutrinas e dogmas. Esta é, portanto, uma das razões pelas quais abandonei a dimensão dogmática da fé: a medida que minha percepção e experiência da realidade vai se expandindo, as doutrinas e dogmas vão ficando obsoletos e insuficientes, e portanto, vão sendo abandonados pelo caminho.
Mas há uma segunda razão porque abandonei a dimensão dogmática da fé. Comblin me convenceu que “os catequistas não podem comunicar a verdade – não podem comunicar à outra pessoa o conhecimento da verdade. Nem os pregadores e nem os teólogos podem fazer isso. Podem comunicar discursos humanos sobre Jesus, mas isso não é tornar conhecida a verdade (...) os catequistas, os pregadores e os teólogos podem fornecer elementos de reflexão; podem transmitir o seu próprio conhecimento ou colocar os ouvintes em condições favoráveis para que possam fazer a experiência do amor, mas devem dar a conhecer que não podem fazer mais que isso: convidar as pessoas a entrar no caminho do amor (...) Não adianta discutir ou procurar convencer. Uma pessoa vê ou não vê. Não adianta forçar alguém que não pode ver a ver. Somente pode ver quem está no caminho de Jesus pelo amor. Os demais não podem enxergar nada e somente podem explicar a visão dos outros em termos de ilusão ou loucura. Ver a verdade não é como ver um objeto, ou como ver um raciocínio. É um ver que envolve a pessoa toda, a vida toda. Não é uma visão que se contempla um momento para passar a outro objeto. É uma visão que acompanha a vida”.
Levando às últimas conseqüências, subscrevo Comblin: “a pessoa pode até não conhecer o nome de Jesus, mas se ela segue o caminho de Jesus, está na verdade”. Adeus dogmatismo. Bem vindo Jesus.
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